A compositagem (ou composição de amostras) é uma etapa muitas vezes vista como “técnica” e rotineira em projetos de exploração, mas a sua importância é central para a qualidade e a fiabilidade de qualquer modelo geológico e estimativa de reservas. Este artigo explica de forma clara o que é compositagem, por que ela importa, como a fazer bem e quais erros evitar — especialmente no contexto de projetos em Moçambique e na região Austral de África.
Em prospecção e modelamento, trabalhamos com amostras (de sondagem, galerias, trincheiras) que têm diferentes comprimentos, suportes e espaçamentos. Antes de interpolar (krigagem, IDW, etc.) para blocos de modelo é necessário transformar essas amostras numa base comparável. A compositagem faz exactamente isso: padroniza o suporte das amostras, reduz ruído local e garante que as estatísticas usadas pela geoestatística refletem corretamente o fenómeno em estudo.

O que é compositagem?

Compositagem é o processo de agregar amostras contínuas com diferentes comprimentos para criar compósitos com um comprimento uniforme (ex.: compósitos de 1,0 m). Existem várias formas (comprimento-peso, volume-peso), mas o objectivo comum é representar de forma comparável a variável de interesse (teor, densidade) sobre um suporte padronizado.
Razões pelas quais é fundamental
- Compatibilização de suporte (sample support vs block support)
Amostras têm frequentemente suportes menores ou variáveis do que os blocos do modelo. Compositar para um comprimento próximo ao do bloco reduz o viés quando se estima o teor do bloco. - Redução do efeito de amostras mistas e do “nugget”
Amostras muito curtas ou irregulares aumentam a variável de curto alcance (nugget effect). Compositar suaviza essa variabilidade de pequeno alcance permitindo um variograma mais representativo. - Estabilização de estatísticas
Médias, desvios-padrão e variogramas calculados sobre compósitos são mais estáveis e comparáveis entre áreas e domínios litológicos. - Controle de outliers / high-grades
Em depósitos com altos picos de teor, a compositagem dilui amostras pontuais extremas que, sem tratamento, podem distorcer a interpolação e sobrestimar reservas recuperáveis. - Consistência para estimativas e apresentação
Resultados de tonnes × teor (curvas tonelagem-teor) e classificações de recursos ficam mais sólidos se a preparação amostral for consistente e documentada. - Melhora na interpretação geoestatística
Variogramas e modelos de continuidade espacial são confiáveis apenas quando as amostras têm suporte homogéneo — algo conseguido com compositagem adequada.
Métodos comuns

- Compositagem por comprimento (length-weighted average): média ponderada pelo comprimento de cada sub-amostra dentro do compósito.
- Compositagem por volume: usa densidade/volume quando amostras têm secções variáveis (menos comum em sondagem vertical).
- Compositagem por domínio: compositar separadamente por domínios litológicos ou de minério (evita mistura de populações estatísticas diferentes).
Imaginemos três amostras contínuas dentro de um intervalo de 3 m com teores: 0,5 g/t; 10 g/t; 0,6 g/t.
A média aritmética simples é (0,5 + 10 + 0,6) / 3 = 11,1 / 3 = 3,7 g/t.
Se essas três amostras fossem tratadas individualmente sem compositagem, a amostra de 10 g/t teria peso exagerado em certos algoritmos de interpolação; ao compositar, obtemos um valor que reflete o suporte de 3 m, reduzindo o efeito de um pico isolado.
Boas práticas recomendadas
- Escolher comprimento do compósito consistente com o bloco-modelo — por exemplo, compósitos de 1 m se os blocos têm 1 m de altura.
- Compositar por domínio geológico — evite misturar litologias com comportamentos de teores diferentes.
- Documentar tudo — comprimento de compósito, método de ponderação, tratamento de amostras cortadas/prefeituras e critérios para exclusão.
- Testar o efeito da compositagem — calcular variogramas antes e depois; verificar impacto nas curvas tonelagem-teor e na classificação de recursos.
- Tratar outliers antes e depois — detectar e gerir high-grades com critérios geológicos e estatísticos (winsorizing, top-cuts), sempre registando decisões.
- Validar com dados de face ou trabalhos a céu aberto — quando possível, confrontar estimativas com amostras de maior suporte (bulk samples) ou lavra piloto.
Erros comuns a evitar
- Compositar através de contactos litológicos (mistura de domínios) — isto dilui sinal geológico importante.
- Escolher compósitos demasiado curtos ou demasiado longos — curtos mantêm excesso de ruído; longos podem apagar variabilidade real.
- Ignorar o impacto nos variogramas — compositagem muda a estrutura espacial; não verificar pode levar a um modelo geoestatístico inválido.
- Não documentar top-cuts ou tratamentos — dificulta auditoria e replicação.
Impacto na classificação de recursos e estudos económicos

A compositagem correcta influencia directamente a classificação (Inferred, Indicated, Measured) — a estabilidade estatística e a continuidade espacial melhor representadas facilitam a subida de categoria de recursos. Em estudos económicos (PEA, PFS, FS) o alinhamento entre suporte da amostra e suporte do bloco usado na estimativa é crítico para projectar reservas mináveis e recuperar valor económico realista.
Em suma, a compositagem é muito mais do que uma etapa de preparação de dados: é uma operação determinante para a robustez do modelo geológico e a fiabilidade das estimativas de reservas. Feita com critérios geológicos e estatísticos, alinhará o suporte das amostras ao suporte do modelo, reduzirá ruído e outliers, e permitirá modelos e decisões económicas mais seguros. Para qualquer projecto sério de prospecção e modelamento em Moçambique (ou onde quer que seja), não ignore — planeie e documente a compositagem desde o início do fluxo de trabalho.


